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quarta-feira, 18 de março de 2009

Botho Strauss ou no cinquentenário da morte de António Botto





Havia um pajem loiro, desse loiro luz ridente,
que de vivo nos dizia o que era amor de cravo.
Despia-se insinuante sem despir nada de si
e tão perturbável era seu luar de inteiro encanto,
quadrado como ele tinha a voz minguada doçura
que chegava a ser decente seu local corpo de infante
escapulido na rua.

Nem o tocava nem via, nem tolhia o seu ar,
no desejo de o tocar como sendo água fria
onde o pé entra ligeiro e logo entrado é certeiro
que tudo há-de molhar.

Ó dolente melodia noutra louca cidadela,
quem me dera cinderela, corça silente e tardia
debruçada na janela da minha alma vazia.

Ó mais dura solidão de estar por ti rodeado,
como cavalo poltrão que não respeita terrado
e ameaça romper o cordão, o emblema,
tudo aquilo que é sagrado, por minutos de ilusão
em minha crina morena.


[© PMA. Inédito, 2009. Fonte: Imagem – Capa do livro As Canções de António Botto. Google]

quarta-feira, 11 de março de 2009

A Casa Fernando Pessoa assinala os 50 anos da morte de António Botto


Fernando Pessoa e José Régio consideraram António Botto um poeta modelar, génio literário que sabia conciliar a Música e a Poesia elevando a cânone formas da tradição popular.
Nas Canções, António Botto alcança laivos de erotismo nunca antes alcançados, trabalhando sobre temas conhecidos e não ditos, assumindo a verdade do seu amor desigual.
Sendo assim tão genial e inusitada a sua arte, qual a razão de ser tão pouco conhecida e divulgada a sua obra? Esta é a questão à qual Eduardo Pitta procura dar resposta.
Convidamos todos os amantes de Poesia a não perder esta sessão única pela voz de um grande Mestre.

[Fonte: Imagem – Convite editado pela Casa Fernando Pessoa. Google]

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Fernando Pessoa, António Botto e outros no Café Martinho da Arcada

[Fonte: Imagem - Fernando Pessoa, António Botto, e outros, sentados a uma mesa do Café Martinho da Arcada. Google]

«Poema de Cinza à Memória de Fernando Pessoa» por António Botto

Se eu pudesse fazer com que viesses
Todos os dias, como antigamente,
Falar-me nessa lúcida visão –
Estranha, sensualíssima, mordente;
Se eu pudesse contar-te e tu me ouvisses,
Meu pobre e grande e genial artista,
O que tem sido a vida – esta boémia
Coberta de farrapos e de estrelas,
Tristíssima, pedante, e contrafeita,
Desde que estes maus olhos numa névoa
De lágrimas te viram num caixão;
Se eu pudesse, Fernando, e tu me ouvisses,
Voltávamos à mesma: Tu, lá onde
Os astros e as divinas madrugadas
Noivam na luz eterna de um sorriso;
E eu, por aqui, vadio da descrença,
Tirando o meu chapéu aos homens de juízo…
Isto por cá vai indo como dantes;
O mesmo arremelgado idiotismo
Nuns Senhores que tu já conhecias
- Autênticos patifes bem falantes…
E a mesma intriga; as horas, os minutos,
As noites sempre iguais, os mesmos dias,
Tudo igual! Acordando e adormecendo
Na mesma cor, do mesmo lado, sempre
O mesmo ar e em tudo a mesma posição
De condenados, hirtos a viver
Sem estímulo, sem fé, sem convicção…

Poetas, escutai-me: transformemos
A nossa natural angústia de pensar –
Num cântico de sonho!, e junto dêle,
Do camarada raro que lembramos
Fiquemos uns momentos a cantar!


[Fonte: Poema – Antologia de Poemas Portugueses Modernos por Fernando Pessoa e António Botto. Coimbra, Editorial Nobel, 1944; pp. 189-190]