Mostrar mensagens com a etiqueta Risoleta Pinto Pedro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Risoleta Pinto Pedro. Mostrar todas as mensagens

sábado, 23 de maio de 2009

Maria Azenha na Livraria Barata da Av. de Roma


No próximo domingo, dia 24 de Maio, às 16h00, na Livraria Barata da Av. de Roma, será lançado o novo trabalho da nossa associada, a Poetisa Maria Azenha. Esperamos por todos...

[Fonte: Imagem – Capa do CD. Google]

quarta-feira, 20 de maio de 2009

HOJE, na Escola Secundária Artística António Arroio, «Ouviu-se o Silêncio a Ler»


[Fonte: Imagem – Cartaz da actividade. Google]

«O Mar Atinge-nos» de Maria Azenha


No próximo dia 24 de Maio, às 16h00, na Livraria Barata da Av. de Roma, será lançado o novo trabalho da nossa associada, a Poetisa Maria Azenha.

O CD O Mar Atinge-nos, será apresentado pela Professora Dr.ª Risoleta Pinto Pedro.


Avisam-nos, e nós divulgamos que durante a sessão será servido um beberete de poesia e guitarra… Pois então! A não perder.

[Fonte: Texto – Convite. Imagem – Capa do CD. Google]

«PESSOA E A ALEGORIA DA CAVERNA»


Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quantoMorre!
Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.

Ricardo Reis, Odes de Ricardo Reis


Todas as grandes coisas se alcançam
com o coração leve

Ramtha

Nas tradições iniciáticas gregas, a caverna representa o mundo. Para Platão, este é um lugar de ignorância onde a alma humana está presa, como no interior de uma caverna. Escreve ele em A República, que a caverna tem uma ampla passagem que dá para a luz; no interior, de costas para a entrada, estão os homens acorrentados, sempre no mesmo lugar. A única luz que lhes chega é a que vem de fora, mas que eles (que somos nós) não podem ver directamente. Para Platão, esta é a condição da humanidade na terra. A caverna é a imagem deste mundo. A luz indirecta que ilumina as paredes vem de um sol, invisível para quem está dentro, mas indica o caminho de regresso da alma rumo à “verdadeira” Realidade. Este simbolismo cósmico e ético compara implicitamente este mundo a um teatro de sombras, de cuja ilusão a alma tem de se libertar para atingir a realidade: o mundo das Ideias, dos arquétipos ou da perfeição. Outras tradições chamam-lhe céu, nirvana, paraíso e outros nomes, mas o que é surpreendente é que parece muito perto de nós e que nos bastaria uma rotação de pescoço para termos acesso à fonte. Tão simples…

Simples, mas não linear. Para alguma coisa lá estão as sombras.

Os processos iniciáticos costumam ser descritos como partindo de uma caverna chamada câmara de reflexão para as provas, e daí para a Luz. Por vezes, como no Poço iniciático da Regaleira, os aspirantes à Iniciação tiveram de descer, com os olhos tapados, por uma íngreme escada. Assim faziam (e todos nós, os que já por ali descemos, de alguma forma) o trabalho de recuo até ao útero.

Ser conduzido a uma caverna é ter uma nova oportunidade de um novo nascimento, de um começar tudo de novo, com a convicção de que somos os agentes da prisão e também os da libertação. Que não há a quem culpar. Estamos novamente no princípio do caminho, uma nova oportunidade se nos apresenta. Saberemos aproveitá-la? Que não há mãe nem pai para culpar e estamos rodeados de espelhos a quem chamamos “outros” (“houve quem” lhes chamasse heterónimos), onde nos vemos. Reconhecer-nos-emos nos rostos dos outros? E nas qualidades? E nos defeitos? Que nos incomoda quando olhamos as sombras dos outros? Saberemos que estamos a ver a nossa própria sombra? Ou continuaremos a ver neles mães, pais, professores, chefes, patrões, esposas, filhos, maridos, sombras da culpa a quem mais uma vez culpar?

Um dia teremos a coragem, como um cão fiel ao nosso próprio destino, ou projecto, ou desenvolvimento, de não largarmos as canelas dos que mais nos incomodam, até percebermos, digo, aprendermos com eles acerca de nós.

Somos, nesta caverna, o guardião, o prisioneiro, as correntes e o libertador. O ser humano que se lamenta é, na realidade, quem se mantém a si mesmo aprisionado, e é ele e só ele quem poderá libertar-se. Segundo a interpretação de Platão e Pitágoras, a alma é mantida em prisão pelas suas paixões e libertada pelo pensamento. Este não é o pensamento em circuito fechado em que andámos a maior parte das nossas vidas, é o pensamento libertador que desfaz as culpas do eu e do outro. Desfaz as culpas mas não cega, mas não oculta, dá a olhar a sombra para ver a sombra.

O pensamento libertador é aquele que liberta o olhar, que até aí só via a dor, por culpa da culpa, ora em si ora no outro, numa monótona alternância.

Uns dos maiores perigos da gruta não são as sombras. As sombras são aquilo que temos, são as nossas circunstâncias, mas não a nossa fatalidade ou destino, apenas a condição a transcender. O perigo é a ilusão de tomar as sombras pela realidade, mas estas, em si, são incontornáveis, o material inalienável para que o processo de individuação se faça.

A caverna, paralelamente à sua função protectora, já foi cenário de obras de arte. Os nossos antepassados desenhavam figuras nas suas paredes, representando animais e pessoas da época, cenas de caça e ritos. Era uma actividade que poderia ter tanto de figurativo como de simbólico ou mágico. Mas na verdade, se atentarmos no símbolo da caverna a partir da concepção platónica, esta actividade de representação é, ela própria, um arquétipo daquilo que é realmente a actividade do inconsciente. Os nossos antepassados representavam literalmente o mundo nas paredes da caverna física, tal como nós representamos, segundo Platão, o mundo das ideias puras nas paredes da nossa caverna, que é aquilo que designamos como o mundo físico.

Os físicos quânticos dizem algo que se pode traduzir como exactamente a mesma coisa. Que criamos a realidade.

Como o vêm dizendo os místicos.
Vejamos os poetas e encontramos mais do mesmo.
Fernando Pessoa refere-se a isto:
“Sou minha própria paisagem, /Assisto à minha passagem/”
Ou: “Tudo o que sonho ou passo, /O que me falha ou finda, /É como que um terraço/Sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.”
Essa coisa linda de que ele fala é a que ficou além de nós, a luz que está atrás de nós e projecta o teatro de que apenas vemos as sombras projectadas. Está lá tudo, nas paredes da caverna, mas… como num filme muito antigo, ou muito moderno: algo distorcido. Como num teatro de sombras. Recorrendo a Hermes Trimegisto: Assim como em baixo, assim em cima” Não existe nada em nenhum plano que não exista nos outros:
Ainda Fernando Pessoa:
“Eu vejo-me e estou sem mim, /Conheço-me e não sou eu”.
Afirma nas Páginas Íntimas e de Auto-interpretação:

“Há entre mim e o mundo uma névoa que impede que eu veja as coisas como verdadeiramente são – como são para os outros.”

A névoa aclara-lhe a visão. Porque o impede de ver as coisas como os outros as vêem, como eles pensam que elas verdadeiramente são: as sombras. Não significa que ele veja o mundo das ideias puras, mas ele sabe que o que os outros vêem são sombras. A névoa torna-lhe nítido o olhar. E aqui está o grande e brilhante paradoxo: a névoa lúcida é aquela que sabe que as sombras são sombras. Isso ainda não é a luz, mas sabê-lo é o primeiro passo sem o qual nada é possível.

Talvez seja essa (não sei, é só uma hipótese) a grande transcendência ou a grande luz que precisamos descobrir: que a sombra é a sombra. Só pode transformar-se em luz a sombra que for primeiro reconhecida como tal. De contrário transformar-se-á provavelmente em cada vez maior breu, cada vez mais denso, cada vez mais palpável, cada vez mais esmagador, cada vez mais grade de prisão. Ou gruta.

Simbolicamente, a caverna representa o inconsciente, essa profundidade tão propícia à elevação. Quanto mais o ser mergulha dentro de si, dentro da sua sombra, no local mais escuro e tenebroso da caverna, mais possibilidades tem de conhecer aspectos desconhecidos da psique, mas também, como um escritor que muito aprecio, Christian Bobin, diz no seu livro La Lumière du Monde: quanto mais se iluminam partes de uma divisão, mais remetemos à escuridão as partes não iluminadas. Este é um perigo real da caverna. Querer iluminá-la subitamente, intensamente, pela sombria luz do fanatismo, ou da certeza, pode tornar as zonas obscuras particularmente inquietantes, os animais selvagens vão acolher-se preferencialmente nesses recantos escuros e podem tornar-se muito assustadores. É talvez conveniente ir iluminado progressivamente a caverna, ir tomando contacto com as partes recém-iluminadas, entrar pé ante pé nas zonas escuras, tacteando, habituando-nos às feras que de nós mesmos escondemos, já que o choque pode ser grande.

Há uma caverna muito segura que habita dentro de nós. Essa caverna é o coração (“.. esse comboio de corda…”). Quanto mais aberto, arejado e confiante, mais seguro se torna, e mais recomendável como sítio para lá se morar. Mas antes é preciso expulsar dele, melhor dizendo, conduzir gentilmente até à porta, o monstro do medo. É um trabalho que pode demorar anos, o monstro multiplica-se, e até pode não terminar, isso não é o que mais importa, mas algum dia terá de ser iniciado. E só nessa altura temos verdadeiramente aquilo a que alguns chamam o iniciado. Que até já pode estar convencido de estar muito liberto ou “avançado”, mas se não tiver feito esse trabalho, não passa de um actor a fingir que participa no teatro iniciático. Nem haverá graus ou honrarias que lhe cheguem. São estes os verdadeiros processos de consciência, os que nos conduzem mais fundo e nos abandonam na caverna a um canto do medo com as nossas sombras. Um dia olhamos à volta e vemo-nos lado a lado com aquele que considerávamos ser o pior dos miseráveis, o mais cretino dos cretinos. Pegamos-lhe na mão e ajudamo-lo a erguer-se. Pensamos nós. Depois, quando o olhamos enfim de pé, percebemos que afinal foi ele que nos estendeu a mão. É nesse momento da morte de toda a ilusão que o trabalho pode verdadeiramente iniciar-se. Mas não há títulos para esses graus. É talvez este o mais doloroso e também o mais glorioso momento: ver a ilusão e viver com ela sem a tomar pelo absoluto.

Afinal, estar aqui pode também ser visto e agradecido como uma dádiva. Esta visita ao reino do físico, das sensações, dos sons, dos cheiros, das cores e dos sabores é para ser apreciada. Se assim não fosse para que teríamos os sentidos físicos? Que os gozemos e nos divirtamos com os prazeres que nos proporcionam, sabendo que o todo não termina aí. E que todos têm direito à sombra e à luz, aos prazeres e ao todo. E respeitando a natureza que também somos nós, coisa que frequentemente esquecemos neste vício da separação em que andamos.

Ainda voltando a Platão e a este mundo, que poderá ser um lugar de sombras, não ponho em causa, mas como não conheço o deslumbrante mundo original ao que aqui está projectado, digo-vos que estas sombras são tão belas que me sinto grata às imagens difusas por me terem acolhido nesta fase da viagem. Quando a sombra que tenho à frente é um nascer ou um pôr-do-sol, quando a sombra que tenho à frente é um estranho e misterioso tom do mar, nuvens a desenharem mundos no céu, um telhado molhado pela chuva, uma erva que cresce entre as pedras, a lua sobre o rio, uma expressão humana de espanto ou maravilhamento, o canto de uma voz ou o som de um piano que me transportam à caverna do meu coração, um gato a espreguiçar-se, um belo poema, o olhar profundo de um bebé e o infinito de deslumbramentos de sombras desta ao mesmo tempo magnífica caverna, pacifico-me com a sombra, aceito a ilusão e saboreio a névoa. Afinal, é para isso que cá estamos. Não se recusa uma bela prenda. Ainda que se trate de um ilusório algodão doce que mal se coloca na boca logo se desfaz.

Sobre a caverna há muita coisa escrita em imensos livros, a começar pela República de Platão, passando pelos vários dicionários de Símbolos e tantos outros, mas cada um de nós pode fazer a sua própria pesquisa interior. Penso que o melhor que podemos encontrar é o que está gravado na caverna dos nossos corações, porque isso, não há Google que busque, é informação inédita, não aparece registado em mais lado nenhum. A não ser nos poetas. Para poupar caminho procure-se em cada poema de Pessoa e das suas “personas”.

Para os deuses as coisas são mais coisas.
Não mais longe eles vêem, mas mais claro
Na certa Natureza
E a contornada vida...
Não no vago que mal vêem
Orla misteriosamente os seres,
Mas nos detalhes claros
Estão seus olhos.
A Natureza é só uma superfície.
Na sua superfície ela é profunda
E tudo contém muito
Se os olhos bem olharem.
Aprende, pois, tu, das cristãs angústias,
Ó traidor à multíplice presença
Dos deuses, a não teres
Véus nos olhos nem na alma.

Ricardo Reis

http://risocordetejo.blogspot.com/


[© Risoleta Pinto Pedro]

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Risoleta Pinto Pedro e o «O Pecado do Vagabundo»


No próximo dia 19 de Abril, às 17:00 horas, na FNAC Chiado, é apresentado ao público o livro O Pecado Vagabundo: Entre a prisão do conforto e a liberdade do desconforto, de Risoleta Pinto Pedro, um conto extraído do livro O Aniversário, editado em 1998. Nós vamos estar lá. Esperamos por si!

[Fonte: Google]

sábado, 7 de março de 2009

«Uns versos Quaisquer (2) Meter o Rossio na Rua da Betesga... em flagrante delitro»


“[…]
Eu, enfim, literalmente eu,
E eu metaforicamente também,
Eu, o poeta sensacionista, enviado do Acaso
As leis irrepreensíveis da Vida,
Eu, o fumador de cigarros por profissão adequada,
O indivíduo que fuma ópio, que toma absinto, mas que, enfim,
Prefere pensar em fumar ópio a fumá-lo
E acha mais seu olhar para o absinto a beber que bebê-lo...
Eu, este degenerado superior sem arquivos na alma,
Sem personalidade com valor declarado,
Eu, o investigador solene das coisas fúteis,
Que era capaz de ir viver na Sibéria só por embirrar com isso,
E que acho que não faz mal não ligar importância à pátria
Porque não tenho raiz, como uma árvore, e portanto não tenho raiz
Eu, que tantas vezes me sinto tão real como uma metáfora,
[…]”
Álvaro de Campos, A PASSAGEM DAS HORAS


Foi durante uma das visitas de estudo que fizemos recentemente com alunos à Lisboa de Pessoa, que me vi confrontada com algumas expressões idiomáticas que aos alunos nacionais não colocam problemas, mas sim aos estrangeiros, que temos cada vez em maior número a colorir com sotaques exóticos os sons dos nossos dias, muito embora os alunos de leste possuam uma rara capacidade para a aprendizagem da nossa língua com um mínimo de sotaque.
Vem isto a propósito da expressão “em flagrante delitro” que constitui a dedicatória com que Fernando Pessoa assina, para Ofélia, uma fotografia de si mesmo ao balcão do Abel Pereira da Fonseca. A foto é bastante conhecida, a dedicatória também, e o Abel Pereira da Fonseca, onde o Pessoa foi “apanhado”, na Rua de S. Nicolau (há quem diga que é em Campo de Ourique), o que tem (tinha) por cima a igreja do “Corpus Christi” , ainda está lá o sítio, embora o prédio esteja fechado e se alguém não der atenção, a tempo, a este edifício duplamente histórico, não tardará muito que ameace ruína a juntar-se a tantos outros.
Durante estas visitas de reencontro com os passos do poeta, passou-se também pela Licorista, antes café Áurea Peninsular, na rua do Arco da Bandeira, onde pode ver-se, no seu interior, um painel de azulejos a cores reconstituindo a célebre foto a preto e branco de Pessoa ao balcão, bebendo talvez a sua ginjinha, talvez o seu absinto. Aí nos detivemos olhando o interior através da montra e virando-nos para a rua, admirando em frente, a fachada do Animatógrafo, onde os desenhos animados agora são outros, com a abertura de uma sex-shop e espectáculos eróticos. Tentando explicar aos estrangeiros o significado de “flagrante delitro”, só me vinha à cabeça a expressão “com a boca na botija”, ainda mais difícil de traduzir, pelo que viesse o diabo e escolhesse. Neste momento, veio em meu socorro a realidade, que nunca nos deixa ficar mal, porque, com as máquinas fotográficas todas apontadas para o animatógrafo, por causa dos esplêndidos azulejos arte nova de Jorge Pinto (depois fomos ver os de Bordalo Pinheiro, na Tabacaria Mónaco), a expressão nos rostos dos homens que vinham saindo (alguns recuavam a velocidade de cruzeiro) era mesmo de quem não esperava e muito menos gostava de ser apanhado “com a boca na botija”. Foi um “momento cultural” muito divertido.
Na rua da Betesga, tradicionalmente considerada a rua mais pequena rua de Lisboa (daí a expressão “meter o Rossio na Rua da Betesga”, que foi o que tentámos fazer ao ambicionarmos percorrer em quatro horas todo o vasto património afectivo de Pessoa na Baixa (quartos, escritórios, cafés, etc), coisa que só conseguimos com muito corta-mato, dizia eu que a Rua da Betesga, apesar das suas modestas dimensões (mas não modesta localização, ali mesmo entre a rua da Prata e a rua Augusta) ainda consegue albergar, só de um lado, uma charcutaria, uma loja de roupas e um banco. De que mais necessita uma rua, de que mais necessita um lisboeta? Nesta rua há dinheiro para comer e para vestir, é uma rua completa. O que não era completo foi a informação de que eu dispunha, porque esperava encontrar o nº 75, onde Pessoa trabalhou, no 3º andar, na Firma Lima e Mayer, que entretanto desapareceu, e tive também conhecimento, nesta mesma visita, que um colega meu teve a paciência, quando andava na Faculdade, de medir ambas as ruas, ao centímetro!, tendo ficado a saber (ele, e agora nós) que a rua do Amparo do outro lado da Praça da Figueira, ainda é mais pequena que a rua da Betesga, tendo uma diferença de... sete centímetros! Lá se foi, num só golpe, um dogma, um provérbio, uma expressão idiomática, um jogo de linguagem (se me permitirem a ousadia de a considerar assim). Um património. Tão valioso como o Abel que encerrou, ou a Igreja de Corpus Christi que se desactivou. Serve-me de compensação saber que se perdemos a rua da Betesga, ganhámos a rua do Amparo. O que não deixa de ser um consolo. A partir de hoje, quando quiserem referir-se a ter mais olhos do que barriga (que foi o meu caso, com esta visita), passam a dispor de duas ruas, podendo escolher entre meter o Rossio na rua da Betesga ou na rua do Amparo. Para os mais moderados, talvez metade em cada uma. Nos tempos que correm talvez dê mais jeito a rua do Amparo. Mas tenho de ir ver que tipo de amparos alberga esta rua. A outra não está mal servida e não nos serve mal.
Vinha isto a propósito do facto de a expressão “meter o Rossio na rua da Betesga”ter sido apanhada “em flagrante delito” pelo meu colega medidor de ruas (não sei se depois de passar pela Ginjinha, nesse caso a medição teria sido “em flagrante delitro”, mas isto já é especulação minha). O que é facto é que com todas estas brincadeiras e conversas em torno de Pessoa e a sua relação com o álcool, acentuada pela sua poesia onde demasiadas vezes se toma à letra o que é trabalho de poeta, logo, de “fingidor”, se fixou uma ideia acerca da sua relação com a bebida que não é verdadeira e muito menos rigorosa. E já que há quem esgrima os próprios textos de Pessoa para o acusar de um alcoolismo que pelo menos nunca foi convencional, relembremos o excerto que vem na epígrafe acima:
“O indivíduo que fuma ópio, que toma absinto, mas que, enfim,
Prefere pensar em fumar ópio a fumá-lo
E acha mais seu olhar para o absinto a beber que bebê-lo...“
Aqui está bem patente que é preciso ler a poesia como aquilo que é e não como uma biografia, com mais razões ainda num poeta de tal complexidade.
Frequentador de leitarias (onde, confessa “eu não ia beber leite”), cafés e tabernas, nunca, no entanto, se apresentou publicamente alcoolizado, nem perdeu o porte digno. A cirrose hepática, até o leite que não bebeu poderia tê-la provocado, sabe-se que o álcool não é o único elemento a atacar o fígado.
De qualquer modo, de alguma coisa ele havia de morrer. Parece ter escolhido aquela que mais poderia baralhar os seus “intérpretes” com a certeza da dúvida.
Assim termino esta crónica onde mais uma vez tentei meter o Rossio na rua da Betesga, e agora, para meu amparo, é aos versos de Pessoa que peço ajuda para me despedir, e que nunca me desamparam:

«Tu, Caeiro meu mestre, o que viste foi a realidade, e não o real.»
Álvaro de Campos.

http://risocordetejo.blogspot.com/


[© Risoleta Pinto Pedro. Fonte: Imagem - Fernando Pessoa na Abel Pereira da Fonseca, 1929. Google]

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

«Uns versos Quaisquer (1) PESSOA E A INTERNET»


O melodioso sistema do Universo,

O grande festival pagão de haver o sol e a lua

E a titânica dança das estações

E o ritmo plácido das elípticas

Mandando tudo estar calado.

E atender apenas ao brilho exterior do Universo.


Álvaro de Campos, 27-11-1914

[In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002]


De vez em quando recebo uns mails daqueles cheios de boas intenções muito bem arrumadas (não tenho nada contra as intenções, eu própria estou cheia de delas, nem contra as arrumações, que ando sempre a fazê-las em casa e nas ideias), o problema é que esses textos umas vezes são atribuídos a Garcia Marquez, outras a Jorge Luís Borges, e ainda a outros autores que agora não recordo. Basta ter lido um pouco daqueles autores para se perceber imediatamente que o texto não tem nada a ver com eles.
Recebi recentemente um mail cujo assunto era qualquer coisa como “Fernando Pessoa e a crise”, entendamos: o Fernando Pessoa que foi, na poesia que continua a ser, e a crise que não deixou de ser, pelo menos foi o que pensei antes de ler o mail. Vinha, como certificado de garantia, acompanhado de uma pintura representando Fernando Pessoa. Tudo bem, até aí. O problema era o poema. Não era um poema, era um problema. Um enigma. Que ainda hoje não resolvi na totalidade, mas que tenho a certeza não ser de Fernando Pessoa. Quem o escreveu, é para mim um mistério que desisti de desvendar, mas Fernando Pessoa NÃO FOI. Aposto com quem quiser.
Acreditam que ele poderia ter escrito isto?:

Ser feliz é reconhecer que vale a pena viverapesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas ese tornar um autor da própria história.É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrarum oásis no recôndito da sua alma .É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.É saber falar de si mesmo.É ter coragem para ouvir um 'não'.É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.

Sem pôr em causa as boas intenções, a moralidade e mesmo a eficácia, para quem conseguir, mas…

Não, definitivamente não. Da sintaxe ao vocabulário, passando pelas ideias. Demasiado linear. Mesmo um Caeiro, um Campos, que não ligavam nada à regularidade (Reis era semi-regular, de uma regularidade muito própria) métrica, rítmica ou estrófica, não se atreveriam a este discurso de pastor protestante em dia de missa (com todo o respeito por todos os pastores, a começar pelo de Caeiro…), Mas Caeiro falaria das árvores e Campos falaria das máquinas, Pessoa não encontrou nenhum oásis dentro da alma, até porque com tanta alma era impossível esquadrinhar em todas. Nem estou a ver se ele estava interessado nisso. Também não estou a ver nenhum deles a verbalizar o agradecer a cada manhã o milagre da vida, sobretudo desta maneira, mas imagino perfeitamente Caeiro a fazê-lo em silêncio, com árvores nas pupilas, Campos com barcos a saírem-lhe dos olhos.

Para ouvir um “não”, não é preciso ter coragem, basta ter ouvidos. O problema é depois. E o problema começa logo ao nascer. Sobre isto Pessoa escreveu uma arca de poemas que ainda hoje cintilam como estrelas lúcidas. Basta lermos com atenção o poema em epígrafe, para vermos como Álvaro de Campos escreve um poema ao estilo de Caeiro, o mestre. Este poeta não cabe em sistemas (nem nos que ele próprio criou) ou em morais, é maior que tudo isso.

Tudo o que se diz no mail abusivamente atribuído a Pessoa que recebi, está condensado com muito mais elegância po(ética) e estética em:
“E atender apenas ao brilho exterior do Universo.”

Sobre Pessoa, estamos conversados.

Sobre a crise, apetece-me enviar um e-mail para o éter “Mandando tudo estar calado”. Pode ser que com algum silêncio se consiga pelo menos resolver a crise dentro de cada um de nós. Ou recomendando “O grande festival pagão de haver o sol e a lua”. Pagão que, ocorre-me agora dizer, afinal Deus foi (ou é?). Que grande confusão quando se fala dele (e no entanto, às vezes, um sussurro dentro do coração, uma aragem leve, leve, no cabelo, uma paz no corpo, falam-nos dele. Seja ele (ou ela? ou ele e ela?) quem for(em): criador ateu, criador cristão, muçulmano, judeu ou pagão. Ou Fernando Pessoa, que por vezes para mim, só com um verso, é consolador como um sonho de Deus.

© Risoleta C Pinto Pedro

http://risocordetejo.blogspot.com/

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

"UNS VERSOS QUAISQUER"… Fernando Pessoa por Risoleta…


Risoleta C Pinto Pedro publicou até hoje, na ficção: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro da Câmara de Sintra, edição da mesma Câmara Municipal, 1996, O Corpo e a Tela, Hugin, O Aniversário, Prémio Revelação APE/IPBL 1994, Ficção, Difel, 1998, O Arquitecto, Hugin, Venite in Silentio, Unicepe, Porto, Setembro de 2004, que destaca, entre outros.

Foi também premiada na poesia pela Sociedade de Língua Portuguesa e participou em colectâneas de poesia e ficção com outros autores.

Escreveu teatro para o grupo TE-ATO, de Leiria, canção para o compositor Paulo Brandão e o Grupo de Música Contemporânea (Aprender com as Rosas), assim como para o compositor Jorge Salgueiro: libretos de ópera (O Achamento do Brasil), cantata (O Conquistador), musical (Kate e o Skate) e canção (“Conquista-me” in Dez Anos de Inquietação, CD dos Negros de Luz, Ed. Tradisom, Jorge Salgueiro, 2005).

Publicadas também, duas bandas desenhadas: O Achamento do Brasil e O Conquistador, Ed. Foco Musical/Fonoteca de Lisboa, cujas falas são constituídas pelos seus libretos.

Tem escrito poemas para os espectáculos da Companhia de Dança Amalgama (Viagens de Luar, A Luz e O Desejo, Mutações, Venite in Silentio (espectáculo cujo processo foi acompanhado da criação de uma ficção com o mesmo nome, em projecto de residência artística no Hotel Convento de S. Paulo), Mater e A Alegria das Rosas.

Espectáculos realizados nos Conventos de Mafra, de S. Paulo na Serra d’Ossa, de Estremoz, de Cristo em Tomar, e nos Palácios da Pena e Regaleira, em Sintra.

Fez crónica (“Quarta-Crescente”) para o Programa Despertar dos Músicos na Antena 2.

Continua a publicar as suas crónicas regularmente em periódicos generalistas, literários e de artes plásticas em suporte papel ou em páginas na internet.

Criou a sua página, onde escreve regularmente:
http://risocordetejo.blogspot.com/

§ A partir do final de Janeiro de 2009, nesta página, Risoleta Pinto Pedro levar-nos-á a ler Uns versos quaisquer (1): uma visita guiada pela Poesia de Fernando Pessoa.

[Fonte: Texto – Risoleta Pinto Pedro. Notícia – AFP. Título da crónica (1) – verso de Fernando Pessoa, escolhido pela autora]

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

A POESIA DE RISOLETA PINTO PEDRO


No outro dia fui aos Jerónimos
com uma mão cheia de alunos
um raminho de azedas e alfazemas
visitar
o Velho do Restelo pensava
eu quando tropeçámos com a mor
ta petrificação dos Poetas.
Depois de de
vida
mente
acariciada a
pedra e olhado o
ar
de
tivemo
nos nós embaraçados per
ante
um altar
pagão
megalito cristão
flor de elevação
marco
marmorear de esquecimento
em padrão
fálico
falido
reverência nossa aflita.
Foi então que um deles, rosmaninho ou alecrim
leu o poeta para lá da pedra e disse para lá do mito:
Isto é muito bonito.
Em poético silêncio recuámos para a frente da vida estava tudo
dito.
……………………………
O lugar onde lamento os poetas mortos é
o mesmo altar onde o talento dos poetas mortos é
o mesmo andar onde habito com os poetas mortos é
o mesmo olhar onde reencontro os poetas mortos é
o mesmo melancólico encolher de ombros

............................
Conheci uma vez um templo
na verdade devotado ao culto
do amor
da rua foi trazida uma misteriosa pedra
de altar e sempre algo misterioso
acontecia cada vez que o(s) oficiante(s) dela
se aproximava(m)
nesse templo os mestres
construtores
desenharam a sua marca sobre a pele
do próprio
templo e indelével ficou
a inscrição
não existindo
esse templo ainda
existe na verdade não
existe e é verdade
que existe e é um verdadeiro templo porque está no tempo e fora
do tempo dentro do templo está
o templo e está
fora do tempo
o templo hoje
o templo transporta-se a si
mesmo sobre as pedras a que alguns apelidam de profanas porque nãoconhecem
a natureza
da pedra é um templo semente é de polinização a sua sagrada
tarefa não sei que aconteceu à pedra
de altar mas não é impossível
que esteja numa outra rua à espera
que um novo templo se erga e alguém a contemple e diga
mas que bela pedra de altar para o meu templo e a arrrrrrrrrrrrrrrrraste
porque é
pe
sa
da
e a coloque novamente no
centro
de um espaço onde
fenómenos misteriosos hão-de voltar
a acontecer
sempre
isto aconteceu em todos os tempos com todos
os templos sobre
pedra se ergue
a pedra e um deus sucede a outro
deus e é sempre o mesmo aquele
que constrói apenas o faz porque não sabe
que é ele o deus a construir
um templo fora de si réplica sem saber da sua própria
natureza e assim até ao fim
do tempo
mas não
do templo.
.................................

Os poetas encostam-se às esquinas e desviam-se
Das pessoas
E buscam
Não
Acham.
Os poetas são más companhias porque se deitam tarde mesmo quando dormem cedo e se levantam tarde mesmo quando se erguem do leito com o nascer do sol. Além disso não têm um pensamento estruturado e falam por alusões. Alimentam-se mal, ingerem símbolos, têm difíceis digestões, complexas metáforas e finalmente não ouvem conselhos.

[© Risoleta C. Pinto Pedro. Imagem - fotografia da autora]

terça-feira, 31 de julho de 2007

MEMÓRIAS DA ASSOCIAÇÃO FERNANDO PESSOA - Jantares Convívio realizados em 2003

Perseguindo a tradição, em 2003, a Associação Fernando Pessoa organizou e realizou vários jantares convívio no restaurante Martinho da Arcada, nos quais participaram como convidados de honra ilustres personalidades da cultura como José Anes, Teresa Rita Lopes, Risoleta Pinto Pedro e Lubélia Travassos.
Contudo, especialmente marcante foi o jantar convívio realizado em Outubro desse ano com a intenção de homenagear o famoso Grupo Fernando Pessoa, grupo de actores e declamadores que nos idos de 1960 muito contribuiu para divulgar a figura e a obra de Fernando Pessoa por terras brasileiras, numa época em que este poeta ainda não era bem conhecido naquele país. Neste jantar de agradável memória estiveram presentes Laura Soveral, Glória de Matos, João D'Ávila, Isabel Ruth, Norberto Barroca e Manuela de Freitas, que aos presentes deram testemunho da verdade da sua experiência [em tempo serão disponibilizadas fotografias destes eventos].

[Fonte: Imagem - "O cantinho de Pessoa" no Café Martinho da Arcada. Fotografia RTP. Google]